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segunda-feira, 27 de junho de 2011

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Não sei se tu recebeu meu outro e-mail, mas vou continuar daqui, afinal nós dois sabemos que eu to escrevendo muito mais pra mim mesmo do que pra ti.
Deve estar ótimo na Austrália essa época do ano, ainda mais depois do Canadá, eu já disse o quanto odeio vocês? Pessoas que ficam viajando e deixando as outras pessoas que os amam pra trás? Porra, eu sinto tua falta.
Já sei o que tu vai dizer, “bla bla bla na certa ela viajou“ sim seu babaca ela viajou pra maldita Europa de novo, mas eu realmente estou com saudade tua. E dela também ok?
Eu não to conseguindo dormir de novo, é eu sei até a cara que tu vai fazer ao ler isso, a mesma que a mamãe disse que tu fazia quando eu chorava sem parar não deixando ninguém dormir. Ei, lembre-se que eu não pedi pra nascer depois de ti.
Lembra quando a gente era criança e brincava de super-herói a tarde inteira com as mesmas roupas? E a mamãe queria lavar mas a gente nunca deixava, por que segundo tu ‘’o Batman nunca troca a roupa’’.
-Você está escrevendo um pouco errado para um pretenso escritor, não concorda?
-Eu to falando com meu irmão e não um juiz, ou tu não sabe ler? Dá pra me deixar em paz um pouco?
-Apenas querendo o melhor como sempre.
Eu preciso te falar uma coisa brô… não sei se tu te lembra do blog que eu fiz, na verdade é claro que tu te lembra por que foi tu que me incentivou a escrever as historias que eu passei a vida criando. Essa cidade fica um verdadeiro resident vil quando ela não ta aqui, precisa ver. Tudo fica morto, hehehe. Queria que tu conhecesse ela, cara, é a guria mais legal do mundo, sério. O único problema é que ela não curte quadrinhos! Fala serio, da pra acreditar numa parada dessas? Bom, continuando eu fiz o blog e comecei a escrever, pq eu tva daquele jeito ruim que eu fico de vez em quando… sacumé né. Depois que a gente começou a namorar eu nunca mais fiquei daquele jeito de novo. Mas agora ela resolve passar um trilhão de anos na porra da Inglaterra fazendo não sei o que!!! Ta… pois é, eu continuei escrevendo e isso tava me fazendo bem, na verdade eu escrevi pra caralho vou até anexar um texto pra ti.  Ela acorda e não sabe quem é. Não sabe quem é o homem sentado ao lado de sua cama. Não sabe por que está em uma cama. Ela entra em pânico como qualquer outra pessoa faria qualquer um que não conhece a própria mente. A mente não consegue pensar então resolve sentir. Ela sente vontade. Ele é lindo e olha para ela com tanto afeto no olhar quanto é possível. Ele ri e apenas pergunta se ela deseja ouvir uma história. Ela sente vontade.
‘’Eu nasci há algum tempo’’ diz ele. ‘’Eu sou o 36º aluno do 2º. Nada de especial. Não possuía o brilho dele, ou força dele, ou cura dele. Possuía uma coisa diferente. Eu sentia coisas que não sabia como nominar em minha juventude, mas isso mudou conforme aumentava meu grau de instrução e consciência. Consciência era o nome que me faltava no começo e me atormentava tanto. Eu não a possuía no nível necessário para ficar em paz comigo mesmo. Ocasionalmente não queria olhar para cima e contemplá-lo. Ou voar em linha reta em direção a níveis superiores e inferiores. Às vezes eu só queria voar sem direção e sem objetivo. ’’
Ela escuta e sente vontade de saber sua patente da aeronáutica, se já lutou em alguma guerra, se sabe fazer loopings, se estudou em alguma escola militar, se foi reprimido por pais que não lhe – explicaram que todas as pessoas sentem vontades e isso é normal, se tem um nome de guerra como Barão vermelho ou Ás do céu e acima de tudo sente vontade de voar com ele para onde quer que fosse.
‘’Eu precisei de muito tempo para entender que não era por acaso. Que tudo era igual. A natureza deles era aquela. O terceiro amava o segundo de um modo especial, quase o venerando apenas em proporções menores em relação ao primeiro. O segundo se distanciava cada vez mais de nós e os outros não viam com bons olhos meus desvios. Eles apenas não sentiam o que eu sentia. Essa era e é a maneira como nós fomos criados. Nós não podíamos criar. Fomos feitos para nominar. Ele criou o vivo. O táctil. O não vivo e não táctil pairava sobre nossas cabeças e se mostrava ao mundo através de nós. Nós vivíamos e dávamos nome, uso, sentido, forma, cor, gosto a tudo aquilo que permeava nossa confusa existência. ’’
‘’No dia mais importante de nossa existência, os mais velhos e todos os outros estavam reunidos próximos ao primeiro para saber o que ele iria dizer de tão importante e para vê-lo pela primeira vez. Não sei se viram por que eu não fui. Não sabia por que senti com toda a minha existência que seria melhor sentar próximo aos lagos. Ele revelou que o propósito de nossa existência era velar a nova criação dele que seria feita as suas imagens e semelhanças. O homem. Tudo o que criamos serviria para eles. ’’
Não sei se ficou legal… é sobre uma mulher que acorda numa cama cheia de aparelhos e tem um cara do lado dela que começa a contar uma história e na verdade ele é um anjo que caiu por ela e agora ela está morrendo e ele não sabe o que fazer, na verdade era sobre eutanásia mas achei meio pesado demais. A ironia da historia era que ele era o anjo da vontade, que criaria a vontade nos seres humanos, fazendo funcionar o livre-arbítrio, mas com ela ele fica dividido entre o amor por ela e a vontade dela desconhecida pra ele, não sei se deu pra entender. Foi a última coisa que eu escrevi.
Minha cabeça está vazia há três meses. Não penso em nada. Ela está muito ocupada com o curso, mas eu entendo. Eu a amo. Não consigo escrever mais nada. Volto a assistir televisão e vejo a criminalidade subindo. A cidade está podre. 
-Se eu pudesse pegaria cada um dessa maldita escória e faria passar pelo verdadeiro inferno. Como um verdadeiro Justiceiro, um Rorshach ou Batman.
-Eu também, mas ambos sabemos o quanto isso é ridículo até mesmo para você.
-Se você é covarde demais para fazê-lo, então o escreva.
É isso que eu to tentando dizer, eu não tinha o que fazer em uma cidade estranha, então passava o dia malhando, lendo e escrevendo e de noite eu me fantasiava e combatia o crime.
Eu não quis parar para pensar o quão ridículo tudo isso era na época e tampouco quero agora.
Lembra do papai, que sempre andava com uma corrente no bolso quando levava o cachorro para passear? E de como ele salvou a gente com aquela corrente de um rottweiler solto? Lembra das nossas primeiras aulas de Hapkido? Eu entendi. Era uma simples questão de antecipação, estar preparado. Apenas isso e um pouco de prática.
Eu não conseguia escrever sobre um super-herói, eu nunca li nenhum livro sobre isso. Somente histórias em quadrinhos. E eu nunca soube desenhar. Se eu soubesse desenhar não escreveria como eu escrevo. Como os sentidos do Demolidor. Não que eu escreva tão bem quanto o Demolidor tem sentidos inumanos. Mas acho que escrevo em função da falta de habilidade pictórica.
Eu não conseguia escrever. Minha imaginação não ia tão longe. Literariamente não vinha nada e eu me lembrei de um conto que fiz sobre minha primeira luta de muay thai, minha primeira chuva aqui nessa cidade e meu primeiro beijo na minha namorada, tudo junto. Eu ia fingir então. Comecei a procurar apetrechos no Mercado livre, coletes, caneleiras, facas, cordas, tonfas, nunchakus e coisas de defesa pessoal. Isso me inspirou um pouco, mas não foi o suficiente. Eu precisava de mais. Aumentei a serie de flexões e corridas.  Conseguia escrever um pouco, mas a história simplesmente não fluía. Eu não tive os pais assassinados, nem aranhas radioativas ou nascido com garras nos metacarpos. Não sofri preconceito de espécie, ou de outro planeta. Nem participei da guerra fria ou mundial como super-soldado.
Só queria inspiração para escrever uma história, para passar o tempo até que minha namorada voltasse de viagem.
-Um verdadeiro exemplo. Melhor do que não fazer nada.
Acho que todo mundo precisa de um Tyler Durden, ou um Kick-ass. Eu só queria escrever.
As encomendas chegaram. Não podia parar para pensar no ridículo. Eu já havia encomendado armas antes, como um bom artista marcial e colecionador, não como vigilante. A roupa era boa, permitia movimento e era resistente. O que eu consegui foi uma mistura de proteção de Moto-cross e roupa de mergulho. Tinha que me acostumar com o peso. Treinar mais. O mestre devia estar enjoado de ver minha cara. Eu realmente entrei na personagem. Só não conseguia pensar em um nome ou símbolo. A gente nunca teve apelido na infância, engraçado.
Graças a deus eu tive um irmão mais velho apaixonado por quadrinhos e artes marciais, graças a deus eu escolhi o sul pra fazer faculdade e conheci ela, graças a deus o inverno me permite usar um sobretudo com uma roupa de mergulho em fibra de carbono por baixo sem morrer de calor e graças a deus o assaltante ficou estupefato demais para saber o que fazer.
Eu preciso de um nome. Uma coisa forte, amedrontadora, que soe nas cabeças das pessoas por anos e que combine comigo. Não consigo pensar em nada.
É minha primeira vez, estou nervoso como nunca. Atravessei toda a rua XV e passei pela praça, escura, mas decepcionantemente inofensiva. Chego a algumas ruas escuras que não sei o nome, onde alguns amigos dela dizem ser freqüentemente assaltados. Vejo um senhor, saindo do carro e entrando em casa e um vulto se esgueirando pela esquina. Essa cena já aconteceu na minha mente milhões de vezes. Cada vez com uma arma diferente, elas estão bem dispostas ao redor do meu corpo. Ou com um golpe diferente, uma torção diferente, uma frase de efeito diferente e uma linda mulher me agradecendo e eu negando qualquer tipo de agradecimento.
Ele pode estar armado, mas eu já estou muito longe para voltar atrás agora.
-Não vá sujar as calças. Isso levaria a situação a um nível sobre-humano do ridículo. Ele pode sangrar do mesmo jeito que você, você também está armado e pronto para agir. Não hesite. Tem outra pessoa dependendo de você agora.
Eu não tenho um revólver. Nem um motivo muito nobre. Mas eu estou aqui pelo menos, senhor, e o senhor vai ser a primeira pessoa salva por mim no livro e no filme e no desenho animado baseado no filme e quando fizerem o boneco baseado no senhor, farão sua careca menos aparente.
Ele não me vê chegar. Eu arremesso uma faca sem cabo e sem contrapeso no seu braço, pra chamar sua atenção, seguido de um golpe de nunchaku na testa. Nocaute. Isso. Perfeito.
A nossa primeira vez sempre é estranha. Na verdade foi bem mais fácil. Eu cheguei perto e o cara saiu correndo. O senhor pensou que eu fosse algum maluco mas acho que depois de correr algumas quadras ouvi ele gritar obrigado.
Eu gostei.
Ela já voltou de viagem, não para de ouvir das minhas historias no jornal local. Eu finjo não saber muito apesar de achar interessante.
Leu os meus textos e mostrou para alguns dos nossos professores de literatura. Até que eles não falaram tão mal. Eu digo sempre para ela que só escrevo para ela e mais ninguém.
Ela vive me chamando de ‘’louquinho’’ de um jeito carinhoso. Eu gosto.
Não sei se é por que vivo fazendo movimentos de artes marciais em todos os lugares que vamos,  se é pelo amor exagerado aos quadrinhos e filmes, pelo jeito que eu escrevo ou pelo jeito que eu falo do meu irmão mais velho.
-Ou porque eu me visto de mergulhador e bato nas pessoas que aparentemente vão machucar alguém, sem um colete a prova de balas. Ou porque eu não tenho mais irmão mais velho.

Um comentário:

  1. Primeira impressão: Um cara falando com o irmão
    Doiziema impressão: O cara não tem irmão e fala com sua mente maluca, a identidade que foi contruída lendo quadrinhos, mas que ele ainda não teve coragem de exteriorizar.
    Treziema impressão: A Red-identity é quem não tem irmão mais velho. O carinha lá a considera como irmã mais velha.
    Quatriema impressão: Ninguém tem irmão mais velho, mas o carinha lá não consegue admitir isso, precisa da identidade que escreve em vermelho pra dizer.
    Cinquiema impressão: Muito bom um texto onde o herói só faz isso pra que possa ter ideia pra escrever, hahaha
    Sextiema impressão: A minha cama parece quente... Dormir e sonhar lindos sonhos enquanto estou quentinho e acomodadinho ou ler Sandman, passando frio e me preparando para ter os piores pesadelos da minha vida? Oh dúvida cruel.

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