Total de visualizações de página

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Insert bad-ass name here



Não sei se tu recebeu meu outro e-mail, mas vou continuar daqui, afinal nós dois sabemos que eu to escrevendo muito mais pra mim mesmo do que pra ti.
Deve estar ótimo na Austrália essa época do ano, ainda mais depois do Canadá, eu já disse o quanto odeio vocês? Pessoas que ficam viajando e deixando as outras pessoas que os amam pra trás? Porra, eu sinto tua falta.
Já sei o que tu vai dizer, “bla bla bla na certa ela viajou“ sim seu babaca ela viajou pra maldita Europa de novo, mas eu realmente estou com saudade tua. E dela também ok?
Eu não to conseguindo dormir de novo, é eu sei até a cara que tu vai fazer ao ler isso, a mesma que a mamãe disse que tu fazia quando eu chorava sem parar não deixando ninguém dormir. Ei, lembre-se que eu não pedi pra nascer depois de ti.
Lembra quando a gente era criança e brincava de super-herói a tarde inteira com as mesmas roupas? E a mamãe queria lavar mas a gente nunca deixava, por que segundo tu ‘’o Batman nunca troca a roupa’’.
-Você está escrevendo um pouco errado para um pretenso escritor, não concorda?
-Eu to falando com meu irmão e não um juiz, ou tu não sabe ler? Dá pra me deixar em paz um pouco?
-Apenas querendo o melhor como sempre.
Eu preciso te falar uma coisa brô… não sei se tu te lembra do blog que eu fiz, na verdade é claro que tu te lembra por que foi tu que me incentivou a escrever as historias que eu passei a vida criando. Essa cidade fica um verdadeiro resident vil quando ela não ta aqui, precisa ver. Tudo fica morto, hehehe. Queria que tu conhecesse ela, cara, é a guria mais legal do mundo, sério. O único problema é que ela não curte quadrinhos! Fala serio, da pra acreditar numa parada dessas? Bom, continuando eu fiz o blog e comecei a escrever, pq eu tva daquele jeito ruim que eu fico de vez em quando… sacumé né. Depois que a gente começou a namorar eu nunca mais fiquei daquele jeito de novo. Mas agora ela resolve passar um trilhão de anos na porra da Inglaterra fazendo não sei o que!!! Ta… pois é, eu continuei escrevendo e isso tava me fazendo bem, na verdade eu escrevi pra caralho vou até anexar um texto pra ti.  Ela acorda e não sabe quem é. Não sabe quem é o homem sentado ao lado de sua cama. Não sabe por que está em uma cama. Ela entra em pânico como qualquer outra pessoa faria qualquer um que não conhece a própria mente. A mente não consegue pensar então resolve sentir. Ela sente vontade. Ele é lindo e olha para ela com tanto afeto no olhar quanto é possível. Ele ri e apenas pergunta se ela deseja ouvir uma história. Ela sente vontade.
‘’Eu nasci há algum tempo’’ diz ele. ‘’Eu sou o 36º aluno do 2º. Nada de especial. Não possuía o brilho dele, ou força dele, ou cura dele. Possuía uma coisa diferente. Eu sentia coisas que não sabia como nominar em minha juventude, mas isso mudou conforme aumentava meu grau de instrução e consciência. Consciência era o nome que me faltava no começo e me atormentava tanto. Eu não a possuía no nível necessário para ficar em paz comigo mesmo. Ocasionalmente não queria olhar para cima e contemplá-lo. Ou voar em linha reta em direção a níveis superiores e inferiores. Às vezes eu só queria voar sem direção e sem objetivo. ’’
Ela escuta e sente vontade de saber sua patente da aeronáutica, se já lutou em alguma guerra, se sabe fazer loopings, se estudou em alguma escola militar, se foi reprimido por pais que não lhe – explicaram que todas as pessoas sentem vontades e isso é normal, se tem um nome de guerra como Barão vermelho ou Ás do céu e acima de tudo sente vontade de voar com ele para onde quer que fosse.
‘’Eu precisei de muito tempo para entender que não era por acaso. Que tudo era igual. A natureza deles era aquela. O terceiro amava o segundo de um modo especial, quase o venerando apenas em proporções menores em relação ao primeiro. O segundo se distanciava cada vez mais de nós e os outros não viam com bons olhos meus desvios. Eles apenas não sentiam o que eu sentia. Essa era e é a maneira como nós fomos criados. Nós não podíamos criar. Fomos feitos para nominar. Ele criou o vivo. O táctil. O não vivo e não táctil pairava sobre nossas cabeças e se mostrava ao mundo através de nós. Nós vivíamos e dávamos nome, uso, sentido, forma, cor, gosto a tudo aquilo que permeava nossa confusa existência. ’’
‘’No dia mais importante de nossa existência, os mais velhos e todos os outros estavam reunidos próximos ao primeiro para saber o que ele iria dizer de tão importante e para vê-lo pela primeira vez. Não sei se viram por que eu não fui. Não sabia por que senti com toda a minha existência que seria melhor sentar próximo aos lagos. Ele revelou que o propósito de nossa existência era velar a nova criação dele que seria feita as suas imagens e semelhanças. O homem. Tudo o que criamos serviria para eles. ’’
Não sei se ficou legal… é sobre uma mulher que acorda numa cama cheia de aparelhos e tem um cara do lado dela que começa a contar uma história e na verdade ele é um anjo que caiu por ela e agora ela está morrendo e ele não sabe o que fazer, na verdade era sobre eutanásia mas achei meio pesado demais. A ironia da historia era que ele era o anjo da vontade, que criaria a vontade nos seres humanos, fazendo funcionar o livre-arbítrio, mas com ela ele fica dividido entre o amor por ela e a vontade dela desconhecida pra ele, não sei se deu pra entender. Foi a última coisa que eu escrevi.
Minha cabeça está vazia há três meses. Não penso em nada. Ela está muito ocupada com o curso, mas eu entendo. Eu a amo. Não consigo escrever mais nada. Volto a assistir televisão e vejo a criminalidade subindo. A cidade está podre. 
-Se eu pudesse pegaria cada um dessa maldita escória e faria passar pelo verdadeiro inferno. Como um verdadeiro Justiceiro, um Rorshach ou Batman.
-Eu também, mas ambos sabemos o quanto isso é ridículo até mesmo para você.
-Se você é covarde demais para fazê-lo, então o escreva.
É isso que eu to tentando dizer, eu não tinha o que fazer em uma cidade estranha, então passava o dia malhando, lendo e escrevendo e de noite eu me fantasiava e combatia o crime.
Eu não quis parar para pensar o quão ridículo tudo isso era na época e tampouco quero agora.
Lembra do papai, que sempre andava com uma corrente no bolso quando levava o cachorro para passear? E de como ele salvou a gente com aquela corrente de um rottweiler solto? Lembra das nossas primeiras aulas de Hapkido? Eu entendi. Era uma simples questão de antecipação, estar preparado. Apenas isso e um pouco de prática.
Eu não conseguia escrever sobre um super-herói, eu nunca li nenhum livro sobre isso. Somente histórias em quadrinhos. E eu nunca soube desenhar. Se eu soubesse desenhar não escreveria como eu escrevo. Como os sentidos do Demolidor. Não que eu escreva tão bem quanto o Demolidor tem sentidos inumanos. Mas acho que escrevo em função da falta de habilidade pictórica.
Eu não conseguia escrever. Minha imaginação não ia tão longe. Literariamente não vinha nada e eu me lembrei de um conto que fiz sobre minha primeira luta de muay thai, minha primeira chuva aqui nessa cidade e meu primeiro beijo na minha namorada, tudo junto. Eu ia fingir então. Comecei a procurar apetrechos no Mercado livre, coletes, caneleiras, facas, cordas, tonfas, nunchakus e coisas de defesa pessoal. Isso me inspirou um pouco, mas não foi o suficiente. Eu precisava de mais. Aumentei a serie de flexões e corridas.  Conseguia escrever um pouco, mas a história simplesmente não fluía. Eu não tive os pais assassinados, nem aranhas radioativas ou nascido com garras nos metacarpos. Não sofri preconceito de espécie, ou de outro planeta. Nem participei da guerra fria ou mundial como super-soldado.
Só queria inspiração para escrever uma história, para passar o tempo até que minha namorada voltasse de viagem.
-Um verdadeiro exemplo. Melhor do que não fazer nada.
Acho que todo mundo precisa de um Tyler Durden, ou um Kick-ass. Eu só queria escrever.
As encomendas chegaram. Não podia parar para pensar no ridículo. Eu já havia encomendado armas antes, como um bom artista marcial e colecionador, não como vigilante. A roupa era boa, permitia movimento e era resistente. O que eu consegui foi uma mistura de proteção de Moto-cross e roupa de mergulho. Tinha que me acostumar com o peso. Treinar mais. O mestre devia estar enjoado de ver minha cara. Eu realmente entrei na personagem. Só não conseguia pensar em um nome ou símbolo. A gente nunca teve apelido na infância, engraçado.
Graças a deus eu tive um irmão mais velho apaixonado por quadrinhos e artes marciais, graças a deus eu escolhi o sul pra fazer faculdade e conheci ela, graças a deus o inverno me permite usar um sobretudo com uma roupa de mergulho em fibra de carbono por baixo sem morrer de calor e graças a deus o assaltante ficou estupefato demais para saber o que fazer.
Eu preciso de um nome. Uma coisa forte, amedrontadora, que soe nas cabeças das pessoas por anos e que combine comigo. Não consigo pensar em nada.
É minha primeira vez, estou nervoso como nunca. Atravessei toda a rua XV e passei pela praça, escura, mas decepcionantemente inofensiva. Chego a algumas ruas escuras que não sei o nome, onde alguns amigos dela dizem ser freqüentemente assaltados. Vejo um senhor, saindo do carro e entrando em casa e um vulto se esgueirando pela esquina. Essa cena já aconteceu na minha mente milhões de vezes. Cada vez com uma arma diferente, elas estão bem dispostas ao redor do meu corpo. Ou com um golpe diferente, uma torção diferente, uma frase de efeito diferente e uma linda mulher me agradecendo e eu negando qualquer tipo de agradecimento.
Ele pode estar armado, mas eu já estou muito longe para voltar atrás agora.
-Não vá sujar as calças. Isso levaria a situação a um nível sobre-humano do ridículo. Ele pode sangrar do mesmo jeito que você, você também está armado e pronto para agir. Não hesite. Tem outra pessoa dependendo de você agora.
Eu não tenho um revólver. Nem um motivo muito nobre. Mas eu estou aqui pelo menos, senhor, e o senhor vai ser a primeira pessoa salva por mim no livro e no filme e no desenho animado baseado no filme e quando fizerem o boneco baseado no senhor, farão sua careca menos aparente.
Ele não me vê chegar. Eu arremesso uma faca sem cabo e sem contrapeso no seu braço, pra chamar sua atenção, seguido de um golpe de nunchaku na testa. Nocaute. Isso. Perfeito.
A nossa primeira vez sempre é estranha. Na verdade foi bem mais fácil. Eu cheguei perto e o cara saiu correndo. O senhor pensou que eu fosse algum maluco mas acho que depois de correr algumas quadras ouvi ele gritar obrigado.
Eu gostei.
Ela já voltou de viagem, não para de ouvir das minhas historias no jornal local. Eu finjo não saber muito apesar de achar interessante.
Leu os meus textos e mostrou para alguns dos nossos professores de literatura. Até que eles não falaram tão mal. Eu digo sempre para ela que só escrevo para ela e mais ninguém.
Ela vive me chamando de ‘’louquinho’’ de um jeito carinhoso. Eu gosto.
Não sei se é por que vivo fazendo movimentos de artes marciais em todos os lugares que vamos,  se é pelo amor exagerado aos quadrinhos e filmes, pelo jeito que eu escrevo ou pelo jeito que eu falo do meu irmão mais velho.
-Ou porque eu me visto de mergulhador e bato nas pessoas que aparentemente vão machucar alguém, sem um colete a prova de balas. Ou porque eu não tenho mais irmão mais velho.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Hokuto no ken

It is pointless to resist
 To the rage of my fist
In this world without solution
Arrives the time of retribution
Those Who are evil Will face the true
Omae wa mo shindeiru

KENSHIRO

Middlewalker

Provavelmente são onze da noite, mas o sol ainda arde na minha cara, quase imperceptível em meio a esse vento gelado que parece espremer meus ossos.
Deus, como eu odeio esse frio do inferno, devia ser proibido fazer sol quando a temperatura está tão baixa.
Quando via aquele vapor saindo da boca do Luke Skywalker e do Han Solo em O império contra-ataca achava muito legal, só não sabia que com isso eu ia ficar sem sentir a boca e o ar gelado ia entrar como agulhas na garganta. É muito fácil se perder nesse mundo de gelo e água, nessa imensidão branca, nem precisa sair do lugar, eu me perdi agora, nesse minuto, fui de volta a 1997, 44.16W de longitude, 2.31S de latitude, America do sul, Brasil,Maranhão, São Luis, minha casa, na sala, deitado no sofá assistindo a maratona de Star Wars na TV, Luke ficou perdido no gelo depois de cortar o braço de um tipo de monstro da neve e não consegue voltar para a base, Han vai resgatá-lo, e o acha quase morto, para manter o amigo aquecido Han corta a barriga de sua montaria tira as tripas e coloca Luke dentro. Essa parte especial me chamou atenção no filme porque apesar de ser uma civilização de colônia galáctica, que guerreia no espaço, com tecnologias inimagináveis, Han usa uma técnica primitiva de sobrevivência, usada em todas as regiões frias habitadas pelo homem, usar o calor corporal interno do animal como abrigo, refiz essa cena inúmeras vezes com meu irmão e nosso cachorro, sendo eu Han e ele ficando embaixo do cachorro para não morrer congelado, depois no final do filme eu teria de ser Darth Vader e perder contrariando a história, então ele concordava. Me lembro do meu irmão e a ausência dele me traz de volta pra cá.  Devem ser onze e meia agora, ou onze horas e um minuto, não sei quanto tempo passou do filme da minha cabeça e quanto tempo passou aqui fora,  nunca liguei muito para noção de data e hora, costumava me guiar pelo céu tropical, sempre pontual, sempre igual. Mudar de região no globo terrestre sempre me deixa confuso, ou é isso ou foi porque acabei de descobrir que finalmente achamos a maldita baleia. Maldita baleia, me sinto o próprio Ahab dizendo isso. Ahab, Capitão Ahab. Conheci ele quando tinha 10 anos, depois de conhecer a tripulação e o único sobrevivente do ataque da baleia branca. Depois conheci Crusoé, Long John Silver, Wolf Larsen.  Conheci, mas eu não os entendia, nem um pouco, não sabia como o mar deixa as pessoas duras. Depois de uma semana naquele barco eu já odiava até minha mãe.
Antes da baleia veio a foca. A foca branca filhote cobiçada por sua pelagem. Eu não conseguia, me recusava a acreditar que um ser humano fosse capaz de matar um animal tão lindo de uma maneira tão cruel. O Capitão do barco e líder da expedição é um Siksika de mais ou menos 40 anos de idade, que apontou uma ilhota de gelo tingida de vermelho com três filhotes com a cabeça já espalhada pelo chão e um último ainda vivo. Um bebê, chorando, sozinho, indefeso, com seus irmãos mortos a seu lado, um canadense de um metro e oitenta com um ferro pontudo nas mãos e tudo que eu consigo pensar é em tirar uma foto para depois mandar, denunciar para alguma ONG e quem sabe em alguns anos DIMINUIR o comércio de peles de foca. Eu deveria estar do lado do caçador. Sou tão cúmplice quanto ele. Meu mestrado em biologia não vai salvar aquela foca, muito menos uma máquina fotográfica que eu não tinha no momento. Nem o telefone daquela ativista exaltada e linda da ONG, nem ninguém que não escutasse o choro do filhote ou visse como ele se movimenta com dificuldade em terra firme.
Meu deus. É um bebê, só um bebê. Não tem nada que eu possa fazer, nem gritar eu consigo. Não posso pular na água sem morrer depois de 15 minutos. Tudo que eu posso fazer é assistir a morte de um bebê e chorar junto com ele. Nunca tinha chorado tanto na minha vida. Nunca me senti tão impotente, inútil, culpado, assassino.
O velho Siksika passou 20 anos estudando a natureza como eu, na universidade dos homens, pela lei dos homens. Os outros 20, pela lei da natureza.
Ele surge de sua sala portando o que para mim até o momento era uma peça de decoração, um lindo arco negro, tão negro quanto os pés dos Siksikawá e num movimento de braço tão natural quanto respirar muda para sempre três vidas.
O som mais lindo que já ouvi. Som de infância, o esticado da baladeira soro-vermelho, o elástico de aplicar injeção da tia enfermeira apertando a madeira e o couro geralmente tirado de um sapato velho do meu avô, a pedra geralmente brita por ser fácil de encontrar e ter o formato triangular perfeito atingindo a polpa macia do mamão. Eu sempre estragava a fruta com a mira péssima. Meu irmão sempre atingia o talo deixando o mamão intacto.
É o mais próximo que meu cérebro chega do verdadeiro som das coisas. O cordão de polímero sintético faz notas muito agudas quando esticado junto com a madeira canadense. A ponta de sílex corta o ar gelado e chega assoviando na garganta do outro canadense. O bebê ainda está vivo. Ele se arrasta para a liberdade e atinge a água enquanto eu sorrio compulsivamente e o caçador se afoga no próprio sangue. Eu entendi. Entendi tudo. Ele me chamava de garoto da AVON, dizia que o lugar de gente como eu não era no mar. Era na’’paz verde’’ junto com outros intelectuais engajados que se importam muito mais em conhecer outros intelectuais engajados e transar com eles do que com filhotes e seus miolos espalhados pelo chão. A matança de animais indefesos e a inútil defesa de seus direitos, ou a tentativa de parecer se importar com isso devem ser afrodisíacas para estudantes em congressos. O mar, um capitão chamado Sikonatayo e seu arco Blackfoot me mostraram que era preciso tomar uma posição na guerra para ter direito de chorar por suas vitimas.
Meu irmão era melhor que eu em tudo. Pelo menos eu via assim. Precisava disso, eu acho. Ele se importava. Ele estava no mar entre um arpão, várias espingardas e uma baleia que acidentalmente quebrou a sua coluna vertebral.  Eu chorei por ele antes do tempo, senti raiva da baleia e me coloquei em cima do muro. Não conseguia fazer nada tão bem quanto ele. Largar tudo e lutar por uma causa maior. Lutar. Telefonar e tirar fotos não eram lutar, não segundo o velho Siksika, ele riu da morte do meu irmão e disse ‘’boa morte’’. Agora eu entendi.
O capitão tratava todo mundo como lixo e tinha uma preferência por mim. Me olhava como se eu fosse um desperdício de carne. O clima no navio era pesado. Algumas brigas eram consideradas naturais até o capitão abrir a porta e olhar pra fora como se nós fossemos meros moleques fazendo confusão. A hierarquia se mantinha matilhamente e os socos e chutes do capitão ficaram familiares até pra mim. Agora eu entendi.
Meu irmão falava de almas ligadas na vida e na morte. Os polinésios acreditavam que o espírito era levado por uma baleia para o reino dos espíritos. Que existia um animal totem dentro de cada um, protegendo e sendo protegido e os dois se encontrariam no outro plano. Antes eu não entendia nada que meu irmão falava, não entendia porque o capitão parecia ser tão desprezível, porque a carne no navio tinha um gosto estranho, porque meu irmão teve que morrer, porque as focas continuavam morrendo, porque levantar uma bandeira de paz verde em tempos de guerra. Eu achava o capitão um filho da puta, achava que não podia salvar a foca, que o caçador ia sair ileso. Antes da baleia, antes da foca, antes da flecha, antes do índio.
Han Solo volta à batalha, agora lutando pela aliança rebelde e salva Luke, ajudando a destruir a estrela da morte e vencer uma batalha contra o império. Ele tomou partido. Antes eu não sabia por que gostava mais dele do que do Luke. Agora eu entendi.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Der doppelgänger

‘’O doppelganger’’ dizia o professor de literatura de um, ‘’é um ser mítico das mitologias nórdico germânica, que é capaz de copiar a pessoa escolhida externa e internamente. Existem muitas controvérsias sobre como esta criatura misteriosa é tratada: uns dizem que ela anuncia maus agouros, enquanto outros ,que é uma manifestação do lado negativo de uma pessoa. No primeiro caso, diz-se que ver o seu próprio doppelgänger é um sinal de morte iminente, pois a lenda reza que a pessoa está vendo a sua própria alma projetando-se para fora do corpo para assim embarcar para o reino dos mortos . No segundo caso, dizem que ele assume o negativo da pessoa para tentar sobre a mesma uma influência maligna, de modo a converter a pessoa a fazer coisas cruéis ou simplesmente coisas que ela não faria naturalmente, ou ainda como no livro, tomar o lugar da pessoa para depois escolher outra vítima’’.
Um não via ligação entre a explicação ‘’folclórica’’ do professor e o livro de Saramago, a não ser o nome, levando em conta a natureza da historia e dos personagens . Um fingia concordar e prestar atenção sempre, pois achava ser isso o que esperavam dele. Um odiava todas as aulas, mas sempre era o primeiro da turma em praticamente todas as matérias, menos literatura.
Quando sabia que não tinha ninguém olhando ou prestando atenção, sua mente fugia para um canto onde sabia que ninguém o incomodaria. Ele olhava pela janela que dava para um jardim fechado e brincava com sua visão, ora mudando o foco do seu olhar para longe e para perto, vendo os objetos ficarem embaçados e depois nítidos, como a lente de uma câmera. O professor discorria sobre a vida de Saramago e um mexia os músculos dos olhos, simulando estrabismo e fazendo a imagem ficar sobreposta, criando assim dois professores chatos de literatura chata, falando sobre um livro chato e esperando que se atropelassem ambas as falas e pensamentos e corpos, sumindo e desocupando o desperdício de espaço físico e docente que eram. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. A mãe de um sempre lhe disse para um não forçar a visão ou ‘‘brincar de ficar vesgo’’ , regra a qual um não podia deixar de sentir prazer em burlar.
 Desde criança um sempre fazia isso quando estava entediado, segurava os dois olhos naquela posição até doer, dava três batidas discretas na parede e parava. E agora mais entediado que nunca, ele tentava criar novas brincadeiras. Resolveu misturar as duas, olhou para as flores na parede do muro do jardim, no momento o alvo mais distante, e seu reflexo. As flores estavam borradas e únicas, seu reflexo estava nítido e sobreposto. Trocou o foco da visão, as flores estavam nítidas e sobrepostas e seu reflexo estava borrado e... Sobreposto?  Fechou os olhos com força, balançou a cabeça e bateu três vezes na madeira da janela. Bateu três vezes, com certeza, mania adquirida aos seis anos de idade. Ouviu seis sons. Abriu os olhos e a imagem estava nítida e única, como devia ser. Mas sorrindo. Seu reflexo sorria e ele não estava sorrindo, ou ao menos pensava não estar sorrindo. Um sentiu o que provavelmente ninguém no mundo sentiu, a não ser em gêmeos idênticos separados no nascimento e se encontrando ao acaso, um sentimento de não saber estar no lugar da consciência ou da visão. Um começou a sorrir para se convencer de sua sanidade. Ao ver o sorriso de um, outro fechou a cara e sumiu, deixando um só e confuso.
Um resolveu ignorar o fato estranho, afinal de contas o que mais poderia ser feito? Dizer que não sabia mais controlar os músculos do rosto tão bem quanto os dos olhos?
Acabada a aula um volta para casa. Um não volta para casa porque já estava em casa.
Não é possível descrever o que um sentiu ao ver outro entrando em sua casa alguns segundos antes dele. Outro que era ele em todos os aspectos, exceto pela direção dos cabelos, o ‘’redemoinho’’ que fica no topo da cabeça e mostra a circulação e energia o corpo, no sentido anti-horário na cabeça de um e horário na cabeça de outro. Um era filho único. Entre os segundos de confusão, entre a possibilidade de estar morto, ser um clone, ter um clone, ser um autômato, ou qualquer outra possibilidade que uma mente moldada por quadrinhos poderia conceber, lhe veio a esperança de que seus pais reconhecessem e desmascarassem o impostor sem que fosse preciso nenhuma ação de sua parte. A não ser admirar a cena. De qualquer forma não queria que família e amigos vissem dois dele.  Ou isso ou o medo do impostor ser ele próprio, levando tudo isso em conta, preferiu não entrar chutando a porta e gritando. Um subiu a árvore do lado da janela de seu quarto e abriu de fora para dentro do jeito que só ele sabia abrir e a única testemunha era sua namorada. Pensamentos sórdidos sobre a cópia de sua namorada o distraíram por alguns centésimos de segundo enquanto fechava a janela o mais discretamente possível. Não sabia o que fazer agora. Resolveu esperar os gritos enraivecidos de sua mãe expulsando aquele crápula, enxerto, xerox filha da puta que estava sentado em seu lugar preferido da mesa,comendo seu almoço. No lugar dos gritos, risadas em escala crescente de sua mãe, dele mesmo (mas com outro tom de risada que ele nunca faria) e surpreendentemente de seu pai, homem sério que considerava à hora do almoço uma hora sagrada. Um não queria nem podia acreditar no que acontecia. Era um verdadeiro pesadelo. Ele sempre sonhou com a morte do tédio da vida de estudante do ensino médio pelas mãos impiedosas de um acontecimento fantástico e inesperado. Talvez um meteoro. Nunca um clichê mais do que batido até mesmo para os roteiristas mais velhos e sem idéias da mais velha das editoras. Um gêmeo maligno que agora conseguia arrancar risadas de sua depressiva mãe e de seu pai tão bem humorado quanto uma calçada. Como um odiava outro. Odiava a ponto de imaginar sua mão deformando seu rosto, até seu rosto não ser seu rosto e sim o rosto dele.
O celular de um toca. Alto. O toque inconfundível de Cliff Burton no baixo de Anesthesia. A mãe de um pergunta para outro o motivo de não levar o celular para a escola. Um atende a namorada que não ouve nem diz alô, apenas começa dizendo que já esta chegando, um passo da tua casa beijo te amo tchau. Um sua frio de pensar na possibilidade do beijo deles dois. E do estudo na hora do trabalho dos pais.  O quarto. Um se esconde no armário. Segue o barulho do carro. O subir de escadas espaçado entre beijos e peças de roupa femininas extremamente difíceis de sair. A taquicardia de um ao imaginar sua namorada nos braços de outro. O enjôo. A raiva. E finalmente a culpa de ter consciência de que de um modo ou de outro, lá no fundo de sua existência agora subitamente dividida, ele sabia que existia uma possibilidade dele desfrutar a cena pornô nacional amador estrelada por sua namorada e por ele mesmo. Gonzo. Diretor, ator, espectador, personagem e critico ao mesmo tempo. O prazer de um sempre fora dividido entre o visual e o sensorial num equilíbrio quase perfeito. Ela geme alto. Ri. Comenta ‘’ tá faminto hoje’’, ‘’até parece que a gente não se vê faz tempo’’. Todos gozam. Ao mesmo tempo. Um olha para ela e para outro. Ela olha para outro. Outro olha para um. Outro venda ela que ainda trêmula, concorda com tudo. Outro olha para um nos olhos que entende e hesitante cumpre o acordo, ela por sua vez nem repara no instante em que duas mãos direitas a tocavam e trocavam de posição no quarto e no sexo.
Ela dorme encolhida no peito de um. Tem os pés e pernas beijados por outro.
Os dois se encaram. Um reflexo não tem personalidade diferente. Não. Seria como se um gravasse um monólogo inteiro e perdesse a memória. 
Primeiro sabe que a cada segundo que passa ela pode acordar. Segundo não sabe como, nem por que e nem o quê está acontecendo. Não tem ninguém no quarto além dele e de sua namorada. Tudo que aconteceu pode ter sido um sonho lúcido, tem que ter sido um pesadelo dentro de outro sonho, no qual você acorda mais ainda está sonhando.
Sim, era um sonho. Nada diferente acontece na rotina, apesar do esperado receio em relação a espelhos e reflexos. Ele vai para a escola e o outro está lá, sendo melhor que ele em tudo e com facilidade. As pessoas começam a reclamar dele, quando ele está presente, como se fosse o falso, aquele que acordou com pé esquerdo, que não está em um dia bom e o outro é a melhor parte, esforçado, bem-humorado e carismático, o melhor lado de uma pessoa, que todos esperamos ser verdadeiro. Ele se aproveita disso um tempo, sendo realmente pior do que era. Não foi mais a escola e via com menos freqüência os amigos. Sua namorada elogiava o dia anterior e reclamava do presente ao lado dele. O outro fazia de propósito para irritá-lo e fazia bem. Sua família sorria mais, estava mais unida e compreensiva e ele não fazia parte disso.
Seria ele o replicante? A cópia, o lado negro, parasita do pior tipo, que não sabe mais se diferenciar do hospedeiro, arrastando todos à degradação?
Foi à praia no seu lugar preferido, que só ele sabia onde era, onde aos 6 anos segurou uma água-viva com as mãos nuas, sem saber do que se tratava, e não foi queimado até o momento que sua mãe o alertou do perigo, ironicamente sendo queimado em conseqüência disso, pelo sustos simultâneos dele e do animal.
Ali ia fugir dos próprios pensamentos e competir consigo mesmo nadando em mar aberto. No filme ‘’Gattaca’’ os dois irmãos nadam mar adentro até que um desista, sendo que o filho mais forte, geneticamente superior sempre venceu, e o personagem principal, nascido naturalmente e com problemas cardíacos, jamais. Ele amava principalmente a cena na qual o mais fraco vence uma única e decisiva vez. Mas não tinha com quem competir, era filho único e não tinha intimidade competitiva ou aquela confiança fraterna com nenhum de seus amigos.
Um sentou e esperou. O outro apareceu. Os dois entraram no mar, os dois nadaram para longe com todas as forças e sumiram de vista. Alguém voltou à praia. Alguém voltou para casa.


domingo, 5 de junho de 2011