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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Legado

Durante toda a minha vida fui ensinado a cuidar da plantação. Não só cuidar, mas proteger. Proteger com a própria vida, como dizia meu avô. Aqueles metros quadrados de erva, legumes, terra remexida, bichos e pedras eram minha escola, minha casa, minha vida. De tanto tempo que passamos ali, meu avô ficou com cara de rabanete. E barba de trigo. Fora alguns metros de terra que todo dia ele levava para casa dentro das unhas. Cinco gerações de homens e mulheres haviam plantado e colhido ali. O dono nos havia dado esse presente e não escondia a preferência por nossos frutos de trabalho. Vinha pessoalmente dar o ar da graça na coleta de sua gorda parte. Elogiava meu avô e seu legado. Sim, eu via esse legado em nossas mãos, amareladas de sumo, de terra e cheias de calos. Eu podia ver o dia que minha barba se transformaria em vagens de cereal e meus dedos seriam ramas de batata, como meu avô. Eu saberia diferenciar a abóbora boa da ruim somente pelo toque e o som da polpa ecoando lá dentro. Meu avô ficaria orgulhoso.
Um dia eu acordei cedo e meu avô não. Não hesitei nem por um momento. Saí de casa em direção a colheita.
Queimei tudo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fluído rosa-parte I

Quando era jovem fazia a barba sempre. Quando era jovem era calmo. Evitava ao máximo qualquer conflito. Aquela voz na minha cabeça era como um amigo, um gêmeo natimorto, um ser parasita que alojado dentro de mim, me protegia a todo custo. Eu era fraco, mais ele era mais fraco e vivia através de mim. E eu obedecia. Eu gostava da sensação de barba feita. O ardor dos mínimos cortes era o sofrimento que embelezava meu aceio. Aquela voz dizia que sim, que agora estava apresentável. Ela dizia: fique forte, fique bonito. Eu era forte, era jovem e bonito. Atleta. Campeão de natação e karatê. Podia sentir a energia em cada poro do meu corpo, como milhões de capacitores em uma miríade de usinas, como as células de um peixe-elétrico.  A voz me soava feliz ou orgulhosa. Ela me lembrava a voz do meu pai. O que é estranho, sendo que não conheci meu pai, apenas a foto no álbum de família.
Depois de um tempo ela foi embora e as sensações foram junto. O que eu sentia como um lixar de madeira; tornando a superfície abaixo extremamente lisa e bonita, com um brilho opaco de madeira usada nos móveis mais caros; que era me depilar para as competições de natação e fazer a barba; agora era como cortar com um facão cego os galhos salientes de um tronco comido por cupins, muito mais quebrando e despedaçando, do que cortando de fato. Por isso nunca mais fiz a barba. A voz está muda. Não tem ninguém em casa. Não treino mais. A sensação de poder físico do iniciante que sente as mudanças em seu corpo e o aumento das habilidades é infinitamente mais prazerosa do que saber todas as técnicas com perfeição, mas estar estagnado. Não sinto a dor da conquista de mais uma flexão antes da exaustão. Não sinto o ardor da lâmina nas irregularidades do meu queixo. Não sinto nada. Fiquei confortável. Anestesiado.
Agora ouço uma voz mais uma vez. Diferente. Sedutora. Envolvente. Ela sabe como eu estou.
Promete que tudo ficará bem. Só tenho que ouvi-la. Eu não me importo. A dor é a própria ausência dela. Só quero sentir de novo.
Comfortably Numb
Hello,
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me
Is there anyone at home?

Come on now
I hear you're feeling down
Well, I can ease your pain
And get you on your feet again
There is no pain, you are receding
A distant ship's smoke on the horizon
You are only coming through in waves
Your lips move, but I can't hear what you're saying
When I was a child
I caught a fleeting glimpse
Out of the corner of my eye
I turned to look but it was gone
I cannot put my finger on it now
The child is grown
The dream is gone
And I have become
Comfortably numb.
Pink Floyd

domingo, 1 de maio de 2011

Rival

Não te peço freqüência
Só força só paciência

Só peço que não me esqueça
Quando esse verso acabar

Só peço que sejas escada
Enquanto eu for teu pilar

Para L,G e T