Total de visualizações de página

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Legado

Durante toda a minha vida fui ensinado a cuidar da plantação. Não só cuidar, mas proteger. Proteger com a própria vida, como dizia meu avô. Aqueles metros quadrados de erva, legumes, terra remexida, bichos e pedras eram minha escola, minha casa, minha vida. De tanto tempo que passamos ali, meu avô ficou com cara de rabanete. E barba de trigo. Fora alguns metros de terra que todo dia ele levava para casa dentro das unhas. Cinco gerações de homens e mulheres haviam plantado e colhido ali. O dono nos havia dado esse presente e não escondia a preferência por nossos frutos de trabalho. Vinha pessoalmente dar o ar da graça na coleta de sua gorda parte. Elogiava meu avô e seu legado. Sim, eu via esse legado em nossas mãos, amareladas de sumo, de terra e cheias de calos. Eu podia ver o dia que minha barba se transformaria em vagens de cereal e meus dedos seriam ramas de batata, como meu avô. Eu saberia diferenciar a abóbora boa da ruim somente pelo toque e o som da polpa ecoando lá dentro. Meu avô ficaria orgulhoso.
Um dia eu acordei cedo e meu avô não. Não hesitei nem por um momento. Saí de casa em direção a colheita.
Queimei tudo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário