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terça-feira, 12 de abril de 2011

o grande dragão vermelho e a mulher vestida de sol parte II

Ela chega sem fazer barulho, sem fazer notar-se, segurando os livros, cara compenetrada e completamente diferente. Carrega uma cópia de um livro contendo as pinturas de Willian Blake. Ela parece meio abatida se comparar com a pose de mulher fatal de cima dos saltos, olhando pra baixo, pra nós pobres mortais. Cortou os cabelos e posso ver seus brincos de aço cirúrgico. Ela deve ter alergia à várias coisas. Está de tênis. Na verdade muito parecidos com os meus. Sua expressão agora é diferente, exótica, mas um pouco mais normal quase meiga. Como uma pessoa pode mudar tanto? Ela era o grande dragão vermelho e agora é a mulher vestida com o sol. Ela não tem nenhuma outra tatuagem a não ser aquela. Por quê? Ela já fala com algumas pessoas na sala, e essas pessoas me conectam a ela, mas sem esse elo somos pouco mais que estranhos. Eu queria estudá-la. Admirá-la. Tocá-la ao menos. Ela é de carne, mas sempre a imagino como uma estátua de mármore. Passam os dias, meu desprezo pelas aulas e minha obsessão aumentam, a cidade é pequena, nos vemos em vários lugares, ela sempre me cumprimenta com o olhar, mas nunca vem falar comigo.  Consegui um estágio no necrotério do hospital escola, não é nada bonito, mas é calmo e me ajuda a botar a mente no lugar. Dia chuvoso hoje, quase ninguém veio a aula, só eu e mais umas poucas pessoas que não falam nada, além dela. Hoje talvez consiga um contato maior. Sim, conversamos quase a aula inteira, fazemos exercícios juntos, falamos sobre artistas preferidos, descobrimos gostos em comum, eu nem acredito, estou feliz, mas posso perceber algo estranho no olhar dela, ela está sendo simpática, mas no fundo, parece muito triste.  Seus olhos parecem uma bolha de sabão prestes a estourar. Eu não vou forçar. Se ela quiser falar, vai falar. Afinal, já estamos falando, vai ver ela queria qualquer pessoa por perto pra desabafar, estava quase perguntando se ela estava bem quando o intervalo bate e ela some. Não a encontro o intervalo todo até olhar pra fora do prédio e vê-la dentro do carro, aparentemente chorando. Ótimo. Mais um mistério. Ela volta e me vê no bar. Pergunto: - tudo bem? Ela responde que sim, que foi no carro pegar um cigarro. Outra pessoa iria acreditar nisso, mas não alguém que está estudando pra ser um médico legista. Ela não fuma, não tem cheiro de cigarro, nem dentes amarelados. Ela está toda molhada pela chuva, mas seus olhos estão vermelhos e levemente inchados ao redor, sinal de choro compulsivo por no mínimo 30 minutos. Que merda, ela era uma completa estranha horas atrás, agora eu quero saber o que a deixa tão triste, quero confortá-la, botá-la no colo e dizer que vai ficar tudo bem, que posso protegê-la do que quer que seja. Sinto que estou ficando completamente louco. Ou amando.

4 comentários:

  1. as duas pinturas sao do Blake e os nomes são os mesmos titulos dos contos

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  2. Ae finalmente atualização :)! Se um dia você escrever um livro, pode ter certeza que eu vou comprar :D! Esse texto tem parte 3?

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  3. mais uma vez ,muito bom!gostei demais!

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  4. ¿qué pasa che? cómo te salen bien las palabras, estoy muy contento por ver que te has agigantado.

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