Está escurecendo, ficando silencioso, mas eu sinto como se toda a selva pudesse ouvir meu estômago, ele se retorce e grunhe para mim, eu peço um pouco mais de paciência, apenas um pouco mais de calma. Não posso fazer o que nasci para fazer com esse barulho todo, eu não posso fazer barulho, eu não estou vivo, eu sou uma pedra, não tenho músculos, não posso me mover, não respiro, é apenas o vento, sou um galho, folhagem, não se incomode, saia, venha comer. A fome é uma arma cruel. Te deixa desesperado, mas focado, fraco, mas obstinado. E acima de tudo impiedoso. Finalmente você sai, admiro seus últimos momentos de vida, toda a tranqüilidade do pasto, você faria diferente se soubesse que vai morrer, faria algo grandioso se soubesse que eu estou aqui? Duvido muito, eu sou um artista, tenho que usar toda a inteligência se quiser comer, ficar contra o vento, saber seus hábitos, preciso lhe conhecer melhor do você conhece a si mesmo. Você só precisa sair de casa e abocanhar um punhado de mato qualquer, sua vida se resume a isso, sem glória, sem a emoção da caçada, de ter duas vidas em suas mãos, sua morte me dá a vida, sua fraqueza me fortalece, você é a colheita de deus e eu sou o colhedor, vou te ceifar, pequeno fruto, e saciar minha sede, você é a presa e hoje é o dia do caçador.
Está escurecendo, perdi a noção do tempo, a cidade é só barulho, mas no momento não ouço nada, te procuro com as mãos e não te acho, assim como brevemente não acharei o próprio ar, já passamos por isso antes, logo vai começar, o tambor martela a minha cabeça, logo eu ouço grilos e cigarras como uma maldita orquestra debaixo da janela, e uma coceira na nuca que a cada minuto vai ficando mais funda, penetrando o meu cérebro, anda logo, não faz isso comigo, eu sei que você gosta de me ver assim, precisando de ti, para poder me aliviar no ultimo instante, mas não completamente, é sempre assim, posso te ver, não posso te tocar, você quer que eu queira, eu não sei como deixar mais claro o quanto te quero, eu te caço pelo quarto, mas quem esta caindo na armadilha sou eu, eu deito na teia, bebo no riacho sabendo que você me vê de dentro da água, ofereço a garganta antes de fechar os olhos, você me puxa com garras e presas e eu gosto da sensação cada vez mais. Você é a predadora e eu serei com prazer a sua presa.
sério... me pegou completamente esse pedaçinho de texto. podia continuar né? fiquei com vontade de continuar lendo!! te amo amor
ResponderExcluirO início me lembrou Caninos Brancos do Jack London. Acho interessante como você faz essa "transição" de um parágrafo pro outro mas ainda falando de fome, necessidade, caça, presa e predador.
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