Eu corro. Nunca acreditei nessas historias fantásticas de feitos sobre-humanos devido a descargas de adrenalina, nunca mesmo, sempre senti que tentaria qualquer coisa se alguma coisa assim acontecesse, mas que não conseguiria nada útil. Meu filho ainda não viu nem ouviu o cachorro correndo em direção a ele, pois continua brincando sentado, segurando dois bonequinhos, um em cada mão, eu me opus firmemente quando meu marido quis ensiná-lo a subir em arvores, tive medo que ele caísse, não tem nem cinco anos de idade, tinha medo que subisse sem que o pai estivesse perto. Agora ele está lá, sentadinho no banco, embaixo da árvore, na qual podia estar trepado em segurança, na praça em frente a nossa casa e paralela a casa da Antonia, de onde se soltou um pastor belga de 80 kg chamado sultão, nenhuma criança gostava de brincar na casa de Antonia, com os filhos dela, apesar dos caros videogames, por causa do sultão, que sempre foi muito agressivo com qualquer estranho. Eu corro. No momento as pessoas já perceberam que sultão se soltou e começam a correr para todos os lados, mas ele não percebeu e continua na direção do meu filho. Imagens horríveis começam passar na minha mente. Não, não mesmo, hoje não, filho errado, mãe errada, eu não vou deixar, então eu corro. Os cinqüenta metros da minha casa até a praça parecem quilômetros e minhas pernas nem um pouco atléticas começam a falhar, mas meus olhos estão abertos e posso ver meu filho que já viu o cachorro, mas não me viu e está paralisado de medo. Ele começa a chorar e gritar por mim. Isso me dá força. Muita força. E eu corro. Dou graças a deus e a minha mãe por ter plantado aquela árvore ali, logo que meu pai comprou a casa e nos mudamos para esse bairro, quando eu tinha 14 anos. Eu chego um segundo antes do cachorro e olho nos olhos do meu filho, antes de tirá-lo do banco, a única coisa que pude fazer foi colocá-lo em um galho próximo e gritar com toda a força: NÃO SOLTA! Não posso dizer que disse isso somente para o meu filho, meu filho está agora pendurado acima de nós, eu rezo para ter forças para segurar o cachorro até que alguém chegue. Não vou soltar por nada nesse mundo. Ele mordeu minha garganta assim que me derrubou no chão, não sei no que devia pensar nesse momento. Não vou ver meu filho se casar. Nem brigar comigo na adolescência. Nem a primeira namorada. Nem voltar da escola reclamando do professor de matemática. Nem na dor ou no sangue que sai de mim. Só penso em você, cachorro maldito, que pode me despedaçar, mas não vai chegar perto do meu filho. Não hoje. Não solta o galho filho, por favor. A mamãe te ama.
tu é foda!!!
ResponderExcluirtu ta escrevendo cada vez melhor... continua, adorei!! :)))
ResponderExcluirGenial, tu escreves de uma forma que da pra "sentir" o texto, e não só aquela coisa "ler > compreender > achar legal". Gostei mesmo.
ResponderExcluiré interessante como escreves ,parece tão real que dá a sensação de estar vivendo aquilo que leio!
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